30/12/2020
Não é que seja a pessoa mais entendida no Cristianismo e muito menos em Teologia, no entanto a cultura familiar e popular juntamente com a minha curiosidade e interesse intrínsecos por história e arte permitiu-me ter algum conhecimento de causa relativamente ao assunto.
Neste caso em concreto ao ver o filme Maria Madalena com a família na noite do dia 25 não consegui ficar indiferente a toda uma analogia Política vs. Religião (algo um tanto óbvio pois desde sempre a eleição de líderes perante toda uma série de movimentos para mobilizar massas para um bem maior, ou não, fora sempre algo tipicamente humano). Aqui em partícula torna-se muito contestável, pois desde se ter considerado Maria Madalena de prostituta até que em 2016 o nosso “querido” Papa Francisco a reconheceu como a Apostola dos Apóstolos, passando pelo mito de Judas como traidor e chegando à expressão mais temida pelos conservadores Católicos:
“Jesus fora o primeiro comunista na Terra”.
Mas sendo assim Maria Madalena teria sido a primeira feminista em Terra, mas já lá vamos.
Como podemos ver efetivamente dá para descortinarmos isto tudo e fazer bastantes comparações.
Então antes de nos focarmos na protagonista do filme creio que faz sentido falar desta última referência, Jesus. Portanto como muitos sabemos Jesus Cristo de Nazaré com ajuda dos seus apóstolos divulgaram todo um novo reino de salvação, o Reino de Deus, sendo ele próprio o verdadeiro Messias e Salvador, no fundo fora o líder de todo um movimento contestatório que visara libertar os Judeus das mãos opressoras dos Romanos. Só aqui identificamos já um primeiro valor em comum não só com o Comunismo como também com outras tantas ideologias provenientes do Socialismo, Marxismo e logicamente qualquer ideologia de uma subcultura Socialista/Marxista: a libertação do individuo das mãos do seu opressor. Claro que era feito pregando uma fé, mas temos de perceber que o ser humano sempre foi feito disso: de tentar justificar o que não compreende através de algo maior que os transcende, e aí, digam o que disserem, mas nem os ateus, na sua esmagadora maioria, escapam. Não reconhecem algo maior que justifique a causa até que alguém a descubra e a prove de alguma forma científica, mas até lá ficam sempre com a mosquinha atrás da orelha. Mas não divaguemos.
"a união é o caminho para um mais fácil e forte progresso"
Também podemos fazer mais comparações se olharmos aos princípios de igualdade e solidariedade, enquanto que a esquerda politica defende o fim da opressão e da discriminação seja por que motivo for, propondo o fim da divisão de classes, a solidariedade e o senso comunitário como forma de evoluir e fazer crescer uma sociedade de forma sustentável e igualitária, evitando a ganância e a supremacia de uns seres pelos outros, no fundo, acreditando que a união é o caminho para um mais fácil e forte progresso. Jesus não difere muito, quando apela à união nomeadamente ao amor pelo próximo, afirmando que somos todos filhos de Deus por igual e somos todos feitos da mesma carne, a sua, e atentos, porque quando o diz refere-se de forma incondicional sem meter qualquer tipo de barreiras como muitos tentam pregar e infelizmente com sucesso.
Agora que falamos um pouco do principal protagonista de toda esta quadra falemos também da motivadora deste texto e porque é que esta é igualmente importante nesta dualidade.
Maria Madalena (ou Maria de Magdala como alguns chamam devido à atual cidade Israelita onde nascera), a mulher que queria ser livre e provavelmente o foi, talvez a mulher mais livre que pisara a Terra.
Segundo se sabe nunca quisera casar e sempre se recusara a fazer algo por obrigação.
Tudo o que fez por si e pelos outros fora só e exclusivamente em prol de si e das suas convicções,
inclusive a sua devoção a Jesus Cristo. Desenganemo-nos se acharmos que foi por submissão ou por castigo dos seus pecados que antes lhe foram atribuídos. Segundo estudos e escrituras (que por conveniência não foram muito divulgados) Maria Madalena sentia uma ligação inexplicável por Jesus, em que se sentia compreendida e sentia que o compreendia (por algum motivo segundo o Cristianismo primitivo, seguindo o Evangelho da própria e de Filipe, ela é a messias e para Jesus a sua igual, a escolhida para divulgar a palavra de Deus lado a lado, mostrando já aqui uma base de valores de igualdade de género, mas já lá vamos) e essa ligação era notória a léguas, inclusive o instinto maternal de Maria de Nazaré o cheirou.
E efetivamente nós como humanos e comuns mortais sentimos este tipo de ligações inexplicáveis, das quais os nossos corpos agem e reagem em conformidade sem querermos nada em troca.
Nós (independentemente de homem ou mulher) queremos cuidar e pomos em prática alguns dos nossos instintos maternais e paternais que temos, ainda antes de nos vermos com crias, para com alguém que gostamos e temos prazer em vê-la feliz e no fundo acho que essa é uma das grandes características do amor (mas o verdadeiro amor): a vontade de cuidar, o que é algo difícil de refutar, porque podemos ver isso não só no amor a um parceiro ou a um filho, mas também para com outros familiares próximos, amigos ou animais. Quando amamos queremos contribuir de alguma forma para a felicidade desse alguém, nem que seja simplesmente deixá-lo existir e viver sem interferir e este é capaz de ser o ato de amor mais altruísta de todos , que poucos são capazes de por em prática, mas que Maria Madalena foi, por muito que lhe custasse ver o amor da sua vida a ser torturado e morto na sua presença sem que nada pudesse fazer (e sabê-lo ainda antes, e por pedido do próprio e consequentemente por respeito e cumplicidade acatou) e por esse amor tão puro acabou por ser recompensada passado pouco tempo, e atenção que ela nunca o fez pela recompensa, porque nem a esperava sequer.
"a mulher como ser não são meros objetos submissos ás vontades e prazeres do homem."
Contudo é triste a consideração que esta magnífica mulher tivera sobretudo por influência de um tal Gregório que quase 600 anos depois de Cristo foi reconhecida pelos seus “defeitos” como sendo “uma perdida que não quisera casar acabando a fugir com um grupo de homens” e segundo o dito papa uma “pecadora, adúltera e possessa”, um termo simpático para prostituta, talvez por temer tanto a ideia de que Maria Madalena e consequentemente a mulher como ser não são meros objetos submissos ás vontades e prazeres do homem.
Mas se assim fosse então que sentido faria louvar a Jesus e os seus apóstolos que se faziam acompanhar por ela?
Não seriam eles também pecadores e adúlteros?
Estas questões ficam em aberto, pois não é por aí que quero entrar, pelo menos por agora.
Podemos confirmar que na sua teoria a religião defende a mulher, até porque antes de toda esta força patriarcal e noutras religiões anteriores ao Judaísmo, não só nas religiões politeístas mas também nas mais ancestrais, algures no Pós Paleolítico, existem registos de crenças onde efetivamente a figura da mulher é idolatrada e acho que por motivos óbvios, o mesmo era suposto acontecer com a própria Bíblia Cristã, mas por algum motivo (medo ou privilégio) sempre se tentou omitir, apesar de que em França tentaram de facto manter essa ideia viva e conseguiram contribuir para a ideia de igualdade de género séculos antes da Revolução Francesa (como vemos desde muito cedo os franceses nunca deixaram que pusessem em causa o seu lema “Liberté, Égalité, Fraternité”, não foi só para a revolução). Por um lado, ainda bem porque já se reconhecia o problema, mas por outro, ainda mal porque em pleno século XXI continua a ser um problema por resolver. E Maria Madalena é importante nestes contextos porque no fundo os seus enormes “pecados” tornaram-na a figura da emancipação feminina e a quebra da ideia de que o homem é tudo e é capaz e de que a mulher apenas serve para tratar do lar, dar filhos e servir o homem.
Concordando com Jesus e acrescentando mais uns pontos, tal como aqueles que se acham dignos de pregar os sermões, seja ele homem com mulher, homem com homem, ou mulher com mulher, ou seja quem com quem for, nós não somos nada sem os outros.Devemos aprender a reconhecer o nosso papel e o dos outros no desenvolvimento de uma sociedade visando o progresso coletivo,
todos nós fazemos parte e somos capazes e essenciais nesta vida efémera, não importa a crença ou o poder e este último nem deveria servir sequer para marcar estatutos.
Entendendo tudo isto concluo que na religião não são os textos sagrados que passam uma mensagem errada, mas sim quem os tem proliferado durante séculos, quase da mesma forma que acontece com o Comunismo e a esquerda. Quem escreveu e fez a luta pela libertação do proletariado e dos povos oprimidos não estava errado da mesma forma que Jesus também não o estava naquilo que dizia (e por muito humano que Jesus tenha sido e com as imperfeições de todos os outros humanos mas reconhecendo as suas ideias, considero que talvez José Saramago tenha sido um pouco duro demais com ele no seu conto, mas não deixa de fazer sentido e respeito imenso todo o conhecimento e sentido crítico do nosso falecido Nobel da Literatura) mas quem esteve errado foram sim alguns líderes que a certa altura puseram as palavras e ideias à sua interpretação, como aconteceu com a interpretação de cada apóstolo e posteriormente a de cada líder da palavra de Deus.
Quero então deixar este pedido de não sermos tão duros para com comunistas e outras esquerdas relacionadas ou para com os religiosos que efetivamente acreditam nas possibilidades das palavras reais dos dois tipos de manifestos, e podemos inclusive aprender imenso com isso, sobretudo no que toca a ser solidário, que a meu ver é uma das muitas coisas que está em falta a muitos que estão em púlpitos a pregar sermões e a outros tantos, independentemente do seu poder na sociedade, que a cada missa e confessionário que vão e fazem, não esperam um segundo após saírem da igreja para espezinhar e destilar o ódio no próximo. Mas também não sejamos os Judas desta vida (e não, não me esqueci dele) que por certo desespero à crença se tornou ingénuo e cego, acreditando e agindo por submissão devido às suas interpretações erronias e de outros também, acabando mais tarde desiludido e reconhecido injustamente como traidor. E por muito que neguemos, para além de os termos um pouco por toda a parte, às vazes caímos em sê-los também.
Agradeço imenso por terem lido até aqui. Para a próxima será mais curto, prometo!
Abaixo segue a lista de obras e documentos selecionados que serviram como referência para alguns fundamentos da minha opinião e outros que serviram como pesquisa para acrescentar algo mais.
HELEN EDMUNSON & PHILIPPA GOSLET, Direção: GARTH DAVIS, MARY MAGDALENE, See-Saw Films; Porchlight Films; UPIP Universal Picture International Production, Film 4, A Film Location Company; Lotus Production, Março 2018
KARL MARX & FRIEDRICH ENGELS, O MANIFESTO COUMINSTA, UM TEXTO MARCANTE QUE ALTEROU A CONFIGURAÇÃO SÓCIO-POLITICA DO MUNDO MODERNO, Padrões Culturais Editora, Junho 2008
JAMES DAVID LEWIS-WILLIAMS, MIND IN THE CAVE, CONSCIOUSNESS AND ORIGINS OF ART, THAMES & HUDSON LTD, Abril de 2004
JOÃO CÉU E SILVA , MARIA MADALENA DEIXA DE SER PROSTITUTA E PASSA A LÍDER FEMINISTA, Diário de Notícias, Agosto 2018, online aqui
JOSÉ LAZARO BOBERG, O EVANGELHO DE MARIA MADALENA, EME, Julho de 2017
JOSÉ SARAMAGO, O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, Porto Editora, Dezembro 2019
MARIA FERNANDA BIRRENTO PEREIRA, DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM ESTUDOS SOBRE MULHERESAS MULHERES NA SOCIEDADE E NA CULTURA MARIA MADALENA E O FEMININO NA CONSTRUÇÃODA IGREJA CATÓLICA, FSHC Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, Março 2011, online aqui